Projecto PRAXIS 2009

 

A imagem e o verbo são trilhos do mesmo percurso.

Igualmente marcados ou mais evidente um que o outro, definem o alongar no caminho, mas não de modo uniforme ou constante. Surgem aqui e além, em conjugações nem sempre consonantes ou complementares, aparentemente discordantes por vezes. Mera marcação. Tantas outras vezes são dizeres que se inter-relacionam para posteriormente se afastarem. São marcas num trilho dúbio de um caminho sinuoso, percurso em si incerto.

 

Nas paredes da “Praxis”, o “projecto”.

 

Pintura que remete para o modo de ver na simbiose imagem – verbo. A cada ícone é acrescentando um dizer, ou será o contrário (?): a cada dizer dá-se uma imagem.

 Pode-se não ler. Não é impeditivo de ver. É que o verbo, embora não abdique de o ser, é frontalmente assumido como elemento icónico, tratado enquanto comunicação imagética. Colando a legenda no quadro, colocando-a em evidência pelo contraste de forma, cor e conteúdo, interferindo notoriamente na composição, está-se a dizer da visualidade e só depois a afirmar o conteúdo verbal. Ou será precisamente o inverso? Chama-se a atenção para o que está escrito, escamoteando o figurado?

 Ambiguidade? Polivalência discursiva? Complementaridade, solicitando níveis diversos no entender?

Se as diferentes composições não têm títulos – não há títulos ao lado de nenhum quadro – a todos eles é associado um conteúdo escrito, mais que não seja na parte de trás da obra, como se fosse o mistério do oculto, possível (?) de encontrar transgredindo a imobilidade das imagens; tirando-as da parede e basculhando o que não é mostrado, indo além da convenção aceite: “não mexer”.

 

Estamos perante a ambiguidade que caracteriza o discurso imagético e que o enriquece, permitindo multiplicidade de leituras, mas aqui, mais do que em outras situações, a ambiguidade alastra para além da imagem. É certo que a pintura em si mesmo apresenta variabilidade de discurso e de processos, indiciando que se trata de um percurso declamado e ao qual se ajustam os modos de fazer, função do que se pretende afirmar ou sugerir no momento e ali.

 

- Naturalmente, aproveitei - é o termo - as paredes do edifício, para expor uma pintura, […] que pudesse fazer alguma propaganda da história humana, desconhecida ou distorcida, que consegue misturar o admirável e o horror, numa sinfonia surda e monocórdica, que todos ouvem mas ninguém consegue aplaudir.

 Não sei se me fiz entender.

 

E é o próprio artista que o diz.

Concordemos com ele, pois que é o seu dizer, mas a sua sinfonia não é monocórdica, nem sequer é surda que a pauta da imagem progride, sustem-se e reparte em dizeres melódicos que se silenciam ora se agigantam, ganhando subtilezas e propondo afirmações.

 

 

 

          É o começo deste projecto Praxis, que vai oscilar entre a luz e o lado sombrio da história humana, pretendendo abjurar da escuridão, sem por isso a escamotear. E, contradição inerente ao modo de comunicar quando se pretende que a mensagem seja eficaz, vai-se utilizar o factor estético como elemento de acesso ao negativo humano, tornando-o cativante para ser aceite enquanto repulsivo. 

 

             “Muybridge” pendurado na parede como tapeçaria que assume ser no franjado que a cerca, no colorido de uma qualquer paisagem marmórea sobre a qual caminham personagens que ao centro vão para lado nenhum, que os extremos se fecham à esquerda e à direita em figurações envoltas em negro. Esta composição chega-nos de um primórdio da humanidade na sua simplicidade, frescura e vigor e, fechando-se sobre si, anuncia todas as possibilidades.

 

          - Tratei a superfície com gesso e acrílico em tons beges e amarelados. Ficou rugosa e matérica. A ideia de uma paisagem rupestre ou uma gruta cantábrica com pintura paleolítica… o início do gesto dentro de nós ”

 

          E as possibilidades vestem-se de tons agitados, o cimo mais pesado ritmicamente: o conjunto separado em três áreas totalmente diversas, estruturadas ortogonalmente, o conjunto procurando um equilíbrio dinâmico, que se afunda nos negros, que sobressai numa gama de vermelhos acastanhados. ”Running-fox” é a passagem para o dinamismo claramente assumido no “Longo voo de Manitou” tela de composição pouco habitual, colocando o acento tónico no cimo à esquerda com cremes, vermelhos e negros, enquanto a figura delineada se situa em baixo à direita na serenidade de campo azul.

 

          -  … Um ritual, uma mensagem, uma flecha que se inicia no Oriente e dá a volta a este mundo, cercado por um dragão que ocupa o topo do quadro. O fim do quadro, o lado de baixo/direito é também o início. O começo da sabedoria.

 

           São três telas irmanadas na composição, no fazer desprendido que lhes confere leveza e sentido de dimensão, na intencionalidade dos espaços abertos como se de uma pradaria se tratasse, onde há muito a percorrer e tudo a encontrar. São os grandes espaços onde tudo é permitido na viagem que agora começa.

 

             

          Signos gráficos! Sobre branco, o negro estabelece signos como que fraccionados pelo uso do uso, que o tempo aqui não deixa marcas. São nítidos, não gastos. São radiantes de um hipotético centro, ou encurvam-se sobre si na procura desse centro. São de pequenas dimensões, elegantes e afirmativos. São texturados em si mesmo e pediram ajuda à matéria do suporte para com eles condizer. Pediram ajuda também à moldura, que já não o é enquanto tal, mas que faz parte integrante da figuração.

       É que uma moldura tem por função separar o ícone do suporte (parede) envolvente, e aqui tem por finalidade, sentida e afirmada, fechar a figuração em um espaço restrito, minimizar esse espaço e simultaneamente salientá-lo.

      

         - A representação da flora e fauna marinha nas origens de tudo.

           Houve alguém que disse, que nunca compreenderia o motivo de acoplar o latim à nomenclatura botânica. E não só. Chamaram a este baptizado científico de "insultos”.

           Inventei os insultos: “Maris stella sine foliae - Maris stella circulus - Foliacie caprinus - Marinus bichu status" 

 

   Estes “Insultos” apresentam-se em grupo, unidos pelas dimensões, cor e coerência formal. Assim, sem perderem individualidade, apresentam-se irmanados no seu estar de fauna e flora primordiais.

   

 

           Uma tarde na praia fixei os olhos nos grãos de areia de aqui e ali e só vi grãos de areia sem horizonte nem extensão. A praia era só fracções de areia pouco mais que visíveis e a luz tão alta que dos grãos só via a sombra e o branco que as encerrava.

         São agora sinais da abstracção de um olhar que reduz a complexidade do areal à singeleza de pontos gráficos numa superfície anulada, entropia minuciosamente seleccionada na vastidão do areal.

 

 

         E se ao meio-dia o sol está alto, tudo é nítido. O círculo é a figura por excelência, mas fechado num quadrado, como limitação, não tanto como enquadramento. Os contrates são fortes e os contornos definidos. Estamos ainda no mundo dos signos-sinais, como que na abstracção síntese de todos os meios-dias que são sempre o fim da manhã e o começar de toda outra coisa.

         

         - Ou seja, o lado mais ou menos positivo da vida, que na sua duplicidade galopante, vai encontrar o lado negativo, Os “meio-dia” procuram ser o centro do sonho. Algum equilíbrio, algo periclitante, mas sempre apoiado.

 

 

          Os signos são agora cabalísticos, que estamos num domínio do etéreo misterioso que liga fenómenos diversos e por conexões não desvendadas. Sinais brancos, espessos, corpóreos. Branco sobre cinzento. Indecifráveis que é essa a sua missão: anotar o inexplicável; os sons e o silêncio; o visível presente e o indizível que se pressente.

          No pequeno quadrado ao centro o signo, fechado na moldura que o limite e restringe. Então, a figuração apodera-se do circundante, invade a moldura e configura outra dimensão. A imagem espraia-se sobre a envolvente limitadora e integra-a na figuração de modo elegante e afirmativo. É uma atitude construtiva, delimitando superfícies de modo nítido, sem no entanto se fechar num geometrismo gelado, que as horizontais e verticais não o são tanto como isso. Não pintando o azul sobre a madeira aqui ou além, num equilíbrio patenteado, a madeira surge como que emergindo, fruto de não se sabe qual razão, afirmando a sua presença em subtis ritmos pictóricos.

 

          - “ […] Após largos minutos de ouvir "Metastasis" perguntou-me quando vinha a música. Aquilo não era harmonia. Não era música. Não era nada. Era indecifrável. Levantou-se e saiu.

         Mas, para ouvir Xenakis, é preciso silêncio. Muito silêncio. As pinturas representam sinais e nas molduras estão pintadas as pautas. Indecifráveis.

          

 

 

 

          São agora os quadrados brancos de gesso marcado pelo processo de feitura, ainda fechados nas molduras, brancos de um branco quebrados e que servem de horizonte à marcação verde e azul ou azul e terra que prefigura o mar. Infantil esta marcação como se saísse de lápis de cor em mãos muito inocentes. Mas o branco está rompido em figuras estranhas. É que vinda do mar de por entre os brancos leitosos das névoas, a sedução terá sempre com ela a incerteza de um mundo inacessível.

  

          - Os 4 trabalhos representam uma figura que se aproxima duma praia vinda do mar. As palavras em baixo, em gaélico, são versos dum poema celta.

 

 

 

    

          “O breve estudo sobre o centro das coisas” é uma maneira de dizer que se pensam e se contam agora coisas sobre a face pouco luminosa dos procedimentos humanos. Em alto-relevo objectos, mais exactamente pedras contam a história do

          “Saké-time de um tempo que não existe; Sharia e as pedras escrupulosamente pesadas e calculadas para a delapidação” e de Giordano Bruno e de Galileu Galileia.

          E não esqueçamos essa sibilina composição em que o lacre atesta que esse artesanal pêndulo está ali desde sempre e pur si muove.

 

 

 

        Então, as telas repetitivas, obsessivamente repetitivas, mas sendo cada qual diversa da outra. Intensas no cromatismo, intensas na sua simplicidade visual e desequilíbrio formal. De tonalidades surdas, tons apagados, elas têm um sentido de tragédia estática e silenciada. São telas com ideologia imagética manifesta. Telas de protesto silenciado.

 

          - Procurei, algum […] non-sense, porque, depois de ter tido conhecimento das respectivas histórias, algumas bem recentes, não se consegue tirar sentido nenhum, razão alguma.

           Entendi premiar estes episódios.

          Todos ganham. Não há derrotado.

 

          “As 7 maravilhas desconhecidas do mundo” (inversão do código na denominação ou ironia sobre o escamoteamento da história!) são:

 

Holodomor, Nanjing Datsusha, Interahamwe, Tuol Sleng,  Lidice, Dresden e Srebrenica que representam a festa da matança humana no seu mais elevado esplendor, vulgo genocídios. Mas, como referi, parece que tudo isto passa ao lado. Serão vitórias.  A máxima “ O homem é o lobo do homem “ de Thomas Hobbes está à partida viciada. Opta-se por um termo de comparação – o lobo – que é um animal nobre. Igualmente para o documentário “Mundo Cão”, das décadas de 60/70, com atrocidades já “démodés” e vulgares, mas com o mesmo figurino comparativo. Besta procura-se. Para quê? O espectáculo vitorioso da ópera humana nem precisa de fundo musical. Todos ganham. Sem aplausos. Sem uivos.

 

         Penso num diálogo da peça de teatro “Huis clos”, de J. P. Sartre (cito de memória):

         “ - Porque sou criminoso?!

           - Porque perdeste!”

 

          Inversão de códigos, ironia na designação do tema, ou impotência no protesto? Ou modo talvez de pôr em evidência a repulsa. Ou só a maneira de dizer: “Todos ganham. Não há derrotados”, que esse foram silenciados no esquecimento merecido dos que foram criminosos só por que perderam.

 

 

          E fico mudo e quedo perante a pintura “Me queda la Palabra”. Tela de uma dramática figuração da ausência, tragédia profunda a negro, impotência absoluta, determinismo final. A árvore obsessiva das telas anteriores fanou-se, perdeu o sentido da vida. Negro sobre negro resta uma cerca (!) meia interrompida. Na sua simplicidade evidente, no sintetismo da sua representação, esta pintura é de uma expressividade tremenda.

   

          - Alguém terá de riscar ali alguma coisa.

           O observador/jogador terá a sua palavra. Se não a tiver, será sinal que afinal pouco compreendeu […] e deixa as coisas seguir no esquema traçado.

 

          Iniciar qualquer coisa! Recomeçar no tabuleiro dos jogos, outro jogo que permita recomeçar, recomeçar sempre. Vamos recomeçar. Joguemos! Mas não esqueçamos!

 

 

 

 

 

          O Projecto Praxis de Henrique Vaz Duarte apresenta-se com uma surpreendente diversidade de modos de fazer e de meios utilizados, correndo o risco de permanentemente quebrar a unicidade interna que lhe dará coerência. No entanto persiste uma atitude, um posicionamento que lhe garante coerência. Se é permitida a metáfora: a paisagem muda ao longo do que se vai vendo, mas quem vê vai sendo sempre ele.

 

          Primeiro pintura-pintura para depois mergulhar num mundo de grafismo leve, incisivo. Parte-se para um desenho de evidência formal (círculo – quadrado) e depois ainda para uma sinalética cabalística. Então espraia-se um riscado de expressividade infantil ao qual se associam rupturas do suporte à maneira de baixos-relevos. Encontramo-nos depois com volumetria utilizadas à maneira de colagens gerando altos-relevos, altamente simbólica, para de seguida reentrar de novo na pintura propriamente dita.

           E no caminho deste percurso, inusitadas imagens foram ficando como espantos.

          Um desenho técnico, com todos os dados necessários, mas completamente falso. O desenho não é técnico! Enquanto projecto é absurdo, tanto mais que o poste projectado não é poste. Colocado em volumetria em cima, ele não é poste, que um poste é vertical. Estranha evidência. Bem verdade que a racionalidade do Homem nem sempre o é muito.

          Ou então este retrato ausente. O papel descuidadamente dobrado, amarrotado, colado com gesso acrílico, mostra opacidades e transparências. Por cima tem colada a etiqueta EM CONSTRUÇÃO. É o retrato em todas as suas potencialidades do devir, todas talvez não, pois que o amarrotado, as transparências e opacidades condicionam definitivamente essa construção.

         Ou ainda:

          - É a história de um out-sider. Um pequeno elemento pictórico que não acompanha a multidão e, isoladamente entra na pintura do quadro, ao invés de seguir o enxame. Por vezes a força está na diferença, nem que seja um simples traço.

 

          São espantos do olhar, soltos no que se vê, mas nem por isso fora do discurso pictórico. São parêntesis pausas que permitem retomar o caminho.

 

 

 

          “Se a arte é um separador social”, ou invertendo os termos da relação: se o grupo sociocultural adere a uma tipologia de arte, fá-lo em função dos mínimos referentes comuns que tem com essa tipologia. “Só se ama o que se conhece”.

          Isto levar-nos-ia a considerações sobre a “opacidade” de certas formas de arte ou ainda à forte visibilidade da tipologia da arte comum aos grupos socioculturais dominantes. E consideramos que a “opacidade” o é só relativamente a alguém e que a “boa arte” também só o é relativamente ao seu grupo. Foi assim na arte das igrejas e dos palácios e dos mercadores. E assim é nos museus e nas bienais e colecções. Relativamente a outros grupos, ela não é “boa arte”.

          Este posicionamento levar-nos-ia a dizer que não há boa nem má arte. Só há aquela que é adequada ou não a quem a vê, ao que teríamos de ajuntar, como restrição, um conjunto vasto de condicionantes e de considerações que a relativizariam. Só assim a asserção ganharia consistência.

          Portanto, não se diga: excelente!

          Explicitem-se os referentes de modo a que quem lê e vê encontre pontes com as suas próprias referências.

          E se em muitos trabalhos se assume a imagem icónica em si mesma, escamoteando as relações directas com o sociocultural, no caso do Projecto Praxis, Henrique Vaz Duarte põem em evidência toda uma gama de referentes de vivência, consequentemente de contexto cultural, que permitem explicitar as razões que ditaram este percurso pictórico. E mais, pondo a expressão verbal de par com a imagem, acentua todas as referências, o que bloqueia as leituras possíveis que se podem fazer, diminuindo ou limitando assim a ambiguidade das imagens que produziu.

           Será?

           O que não as priva da virtude estética nelas contida. Os sinais cabalísticos do conjunto Xenakis não são menos eficazes (ia dizer menos belos) depois de referidos ao músico. É que há uma dimensão da imagem que é obrigatoriamente atada à longa tradição da pintura - também ao modo de percepção do Homem, dizem algumas correntes - e que dita noções de equilíbrio, dinamismo, bem-estar ou angústia, serenidade ou agitação.

          Há um modo de fazer (para o grupo cultural a que pertenço) que indicia e estrutura a “boa maneira”. Tomemos um exemplo: na tela “Longo voo de Manitou” o arco do arqueiro trepa pelo espaço vazio que lhe é acima. Nesta situação, o arco é compreendido como amplo, provido de dimensionalidade expressiva. O artista leu o espaço e definiu-o em função da imagem global, conferindo equilíbrio ao conjunto e salientando o objecto.

              É este modo de fazer, de a tornar correcta porque incisiva, e incisiva porque construída segundo ditames de eficiência plástica, que informa a arte e a determina enquanto tal. De outra maneira dizendo: enquanto catalisador na percepção, a obra de arte tem de acercar-se da globalidade emocional - lógico do observador (mesmo se gera repulsão), ou ficar-se-á pela área da indiferença.

 

             - Não é de estranhar que um dos quadros para mim mais poéticos, " O Suave Perfume dos Laranjais", que homenageia Pietro Mascagni no trecho musical "Gli Aranzi Olezano" da ópera Cavalaria Rusticana, tenha sido mandado retirar da parede do quarto por uma doente, porque lhe fazia impressão negativa e a incomodava.

 

          É também por isto, mas não só, que é de actualidade exigir ao artista plástico a explicitação dos conceitos que determinam a obra produzida, o que em si mesmo pode ser inútil ou mesmo nefasto. O “tom de intelectualidade” deve estar presente na obra ela mesma e que o autor utiliza como modo o mais completo da sua maneira de se expressar. A adjunção de informação complementar, com outra forma de expressão, pode minorar o que foi dito. Não se pede ao romancista que desenhe os seus personagens.

 

          Mas não é o caso do Projecto Praxis.

          Henrique Vaz Duarte não explicita conceitos; antes junta a expressão verbal à pictórica, como que em um gesto de falar e gesticular, como se os gestos permitissem pontuação e marcação tónica do discurso, dirigindo-se, em simultâneo, de forma diferente a dois modos diferenciados do entender. Daí, em parte, a riqueza da sua comunicação, e também a polivalência e a ambiguidade, tanto mais que muitas das vezes procede à inversão dos códigos culturais aceites.

 

          -"Lucifer, menino" (ainda estava no atelier) não era lá muito bem visto, quando se conhecia o título. Tive de explicar o étimo latino de Lucifer ("lucis ferre") portador da luz e falar sobre uma má tradução da Bíblia, que ainda hoje vigora. A desmistificação do termo feita por Stanley Clark surtiu poucos efeitos. O nome continua na penumbra, a significar exactamente o contrário.

 

     E a situação é a mesma, ou as consequências são semelhantes, quando embora não havendo inversão de códigos, Henrique Vaz Duarte procede à sobrecarga de informação.

 

          Este alto-relevo transmite uma noção de centralidade sobre centralidade. Um volume ovóide, com pintura sobre ele circular também, colocado num espaço quadrangular, encerrado na moldura de madeira que contém uma indecisão na sua parte superior. Pedra, gesso, pintura, madeira num pequeno espaço centralizado denotando uma sensação de excesso.

 

          -Giordano Bruno, que dizia, entre outras blasfémias que o Universo era infinito o que o levou a ser preso, torturado e queimado vivo pela Inquisição.

           Esta purificação é retratada simbolicamente por uma meia esfera, meia abóbada, colada a meio do quadro. Por cima está desenhada/gravada uma esfera completa. Um fio gravado na pintura da moldura dá conta de algo ter saído dali.

            Meia abóbada: a Igreja estabelecida. Desenho da esfera sobre a meia abóbada: o universo conhecido. Fio: heresia.

 

          É pois uma informação que tem por função repor as intenções na base da construção da imagem e que, indubitavelmente, altera a leitura que dela se faz, tanto mais que, profundamente simbólica, assenta sobre símbolos herméticos quando não descodificados.

           Mas acentue-se: as duas leituras que se podem ter da obra, uma antes da informação e a outra depois, têm a sua validade própria. A primeira é meramente leitura plástica: é a forma que conduz a percepção/emoção. A segunda, pré-informada pelo discurso verbal, fornece denotações e conota a imagem orientando a percepção.

 

 

 

          Ao autor cabe dizer “eu” e ao longo deste texto, em itálico fomos salvaguardando a palavra de Henrique Vaz Duarte, contextualizando os códigos culturais que cercam o seu “eu”, o do artista.

         Nesse sentido cabe ainda explicitar as razões que ditam este Projecto Praxis.

 

           - … A pintura valeria só por ela, sem qualquer tipo de referências ao edifício, ao projecto médico, às pessoas, à tecnologia, aos doentes, etc.

           Ou seja, arrumei para o lado a clínica e fiz pintura de acordo com uma certa real gana.

 

 

            Não se trata pois de uma obra tipo “site specific”, muito  actual, em que o autor abdica da sua individualidade para em consonância com os locais gerar o que será a simbiose entre o “eu” e o contexto físico e que tantas vezes faz perigar o “eu” e desrespeita a especificidade do lugar.

        Pelo contrário, estamos perante a manifestação de uma autenticidade, porque a única possível que o pintor tinha de expressar o seu mundo, o tal mundo do contexto sociocultural, vivenciado no percurso que se vai fazendo.

 

Pego no dicionário:

          Projecto – s. m. – na filosofia existencial, aquilo para que tende o homem e é constitutivo do seu ser verdadeiro (c.f. psicanálise existencial).

           Praxis - (c s), s. f. (neol. psicol.) – actividade fisiológica e principalmente psíquica, ordenada para um resultado.

 

           Projecto Praxis é pois a declaração do constitutivo de um ser, ordenado para um resultado que informa da autenticidade do “eu” numa declamação individual, projecto expresso em pintura fortemente assente nas miríades de referências vivenciadas. Consequentemente, as coisas não são simples, nem tão pouco directas. As coisas, as pinturas têm de ser o que o autor é, adentro do que consegui ser à medida que foi pintando, mais exactamente neste caso: à medida que ia manipulando referências e materiais.

          Catarsia (no sentido aristotélico do termo) no acto de criatividade. As verdades ou as não-verdades, pouco ou nada controladas, o fervilhar de todo um mundo e sub-mundo. Da ”Cour des miracles”, de esse lugar do  “non-droit” da mente,  emergem as obras realizadas na materialidade das coisas.

            Quando apagado o processo de criação, as obras na sua existência autónoma traduzirão ou não uma clarividência comunicacional, de acordo com os ditames culturais vigentes no mundo do “outro” e daí um novo modo de ser, um pouco ou muito amputado das (in)razões da sua origem.

 

 

          Nas paredes da Clínica Praxis, no ambiente sereno do seu funcionalismo, no silêncio do seu colorido neutralizado, totalmente envolvente, as pontuações de cor e do discurso da pintura de Vaz Duarte. Mas ela não foi feita para aqui nem para nenhum outro lugar, que só foi construída para si própria, centrada sobre si mesma. A cor é cordata, a figuração nem sempre ou poucas vezes o é. Muito provavelmente, poucas situações de indiferença, que esta pintura, mesmo quando tranquila, é incómoda, porque apela a uma leitura não directa e de inquietação evidente.

          Há concordância entre eles, ambiente e obra, e há confrontações. De mesmo será com quem passa, com quem está, com quem olha, com o “outro”.

        Modo de dizer: vivências.

 

 

          Another Game ou o jogo de sempre?!

          Joguemos o jogo.

 

 

                                                  Porfírio Alves Pires

 

 

         

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

APARIÇÃO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Keep your face towards the sun. The shadows will fall behind you.

Susannah Stephen

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 INSULTOS

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

UMA TARDE NA PRAIA

 

 

 

 

 

  

MEIO-DIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 XENAKIS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

The one who will marry me will come from the sea

 

 

 

 

 

 

 

 

  

… Et je m’en vais

Au vent mauvais …

Paule Verlaine

 

 

 

 

 

 

 

AS 7 MARAVILHAS DESCONHECIDAS

 DO MUNDO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ME QUEDA LA PALABRA

 

 

 

 

 

 

ANOTHER GAME

 

 

 

 

 

 

 

REMEMBER ALAMO

 

 

 

 

 

 

 

À  l’Amour, Citoyens!

 

 

 

 

 

DESENHO DE POSTE

 

 

 

RETRATO

 

 

 

 

 

THE  MISSING PIECE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O SUAVE PERFUME DOS LARANJAIS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 LUCIFER MENINO

 

 

 

 

 

 

 

 GIORDANO BRUNO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

BOCCIONI

 

 

 

  

 

A NOITE DO DIA Nº 5