VAZ DUARTE

O PRAZER (INEFÁVEL) DO OLHAR E UM MODO RIGOROSO DE (SABER) VER

 

“… possuir o mundo em forma de imagens é precisamente re-experimentar o que há de irreal e de remoto na realidade”. Susan Sontag

 

Uma imagem é, seguramente, uma visão que se reproduz ou recria, ou seja, uma aparência, uma exterioridade, que, desligada do espaço e do tempo em que o acontecimento se verifica, é inscrita, fugaz ou indefinidamente, num outro contexto.

Por exemplo num desenho, numa pintura, numa fotografia, ou em quaisquer outras formas menos usuais.

O nosso conhecimento, aquilo que sabemos, tem uma acção actuante imperativa no modo como exercemos o sentido da vista face ao que nos rodeia, e, também, directa influência na maneira como esse modelo de ver é afectado. Tal conhecimento é, assim, igualmente responsável pelas imagens que criamos; pode mesmo dizer-se que, a par da interferência do meio cultural em que nos inserimos e da sensibilidade de que somos naturais portadores, intervém na nossa capacidade de saber ver.

São as imagens geradas pelo homem que dão corpo a um modo de ver – mesmo quando traduzidos em imagens fotográficas: porque a fotografia, urgente se torna afirmá-lo, não se confina, como se possa pensar, a um mero registo de imagens, nem tampouco ao simples recurso a todo um conjunto de operações manuais, como enquadramento, abertura, distância focal, profundidade de campo…

Por outro lado, hoje ninguém ignora que a fotografia é, de há muito, considerada uma arte autónoma, fundamentalmente caracterizada pela necessidade específica de encontrar – e registar.

Ora, registos que se apresentem por demais denunciados, resultariam hoje pouco perturbadores – logo, pouco eficazes – e, naturalmente, menos interessantes, se, paralelamente, não se perfilassem outros factores que muito têm a ver com a relação ambígua da fotografia e a sua metamorfose em pintura – isto é, com aquela sobreposição conivente que as implica, sem as (com)fundir: o que, de outro modo, constitui uma das condições emergentes do facto de, quer a visão hiper-realista (a identificação exige o rótulo) serem necessariamente uma justaposição ao real – e, consequentemente, uma redundância. Ora, redundância contém, virtualmente, previsibilidade; previsibilidade que, por sua vez, pressupõe obviedade.

Mas, em Vaz Duarte, o óbvio é apenas aparente: o essencial, o substantivo, está para além e para aquém da aparência imediatamente visível.

E se, de facto, os seus trabalhos evidenciam uma iniludível interacção entre a fotografia (entendida como um valor, uma “ferramenta”, indispensáveis à elaboração das suas peças) e a pintura, esta não se limita a reproduzir o real, antes contribui para a sua desmitificação, em imagens que desafiam os estereótipos que elas contêm.

VD é, pois, o fotógrafo que fornece sugestões ao pintor-ele-próprio e o pintor que, por seu lado, exige imagens ao fotógrafo-ele-mesmo, descomplexadamente, apostados como ambos estão num projecto idêntico: estética e plasticamente conseguido, mas igualmente interventivo – quer dizer, distante daquela linearidade que uma vista apressada possa levianamente fazer supor. Daí que a sua obra esteja, em grande parte, impregnada de um jogo de subtis relações, simultaneamente óbvias e intrigantes.

Num primeiro relance às suas telas, nomeadamente às que agora nos é dado apreciar, o espectador é impelido a reagir ao apelo extremamente directo de um hiper-realismo cuja essencialidade rigorosa é assaz evidente; onde a confrontação de imagem visual com o elemento que lhe corresponde na vida real é essencial, tão essencial como a confrontação da imagem consigo própria.

Na sua exigente actividade operativa. VD consegue reautenticar a imagem fotográfica com penetrante lucidez, convertendo-a em imagem pictórica (ele é, não nos esqueçamos, eminentemente e predominantemente um pintor), com exactidão e o rigor de objectiva fotográfica. Perante os seus trabalhos, o espectador experimenta e enfrenta, assim, uma singular intensidade óptica, que supera a da própria fotografia.

Quer aquele resultado, quer este efeito, alcançados por via duma insólita objectividade, revelam, propõem igualmente uma outra leitura, ou seja, uma visão subjectiva da realidade (esta vertente constitui um valor excepcional, uma qualidade preponderante) – ,contrariando claramente os conceitos convencionais universalmente aceites do hiper-realismo, onde apenas a objectividade tem estatuto assegurado.

Com VD aprendemos a captar a imagem oportuna, o pormenor singular, o ângulo correcto; a solucionar problemas de espaço, de composição, de luz, de configuração, de volume, de forma, de equilíbrio, de cor, ao mesmo tempo que, ao abordarmos a análise dos seus quadros, somos induzidos a olhar de perto pessoas e coisas vulgares do nosso quotidiano, que então descobrimos com um misto de surpresa, prazer e sedução.

Não é de estranhar, portanto, que as imagens que oferece – com o suporte duma “irritante” perfeição técnica – nos patenteiam detalhes duma realidade que julgamos conhecer bem, mas de que, na verdade (tal como nos demonstra Beckett, no seu teatro do “absurdo”), já não nos apercebemos, tanto por defeito de habituação, como por deliberado comodismo.

Artur Fino