A mulher na pintura de Vaz Duarte

A sinestesia não será mais do que saltar de uma impressão sensorial para outra. Assim, podemos saltar do som para a visão, da visão para o som. Mas o paladar e o tacto também entram no jogo, bem como o cheiro. É vulgar o termo “voz aveludada” e dizermos, muitas vezes “doce” e luz do sol ao entardecer. Pintura e Literatura (sobretudo, Poesia) andaram de mãos dadas com a música. Lembro, por exemplo, Debussy, Falla, Stravinski, Tchaikovsky e Rimsi-Korsakoff. Além disso, o mundo das equivalências sinestéticas recorda-nos, de imediato, as experiências de Walt Disney no seu filme “Fantasia” e mais tarde Mc Laren. Isto, no campo visual do cinema. Na pintura recordo-me de algumas representações de carácter musical na obra de Nadir Afonso e o quadro “Broadway Boogie-Woogie” de Mondrian que, em seus rectângulos coloridos procura sugerir este ritmo tão conhecido.

Perguntei-me várias vezes porque seria a mulher sempre eleita preferencial do artista. Encontrei muitíssimas razões defensáveis ao longo dos muitos anos que já vivi. E, há dias, descobri outra que tenho, também, como decisiva e me foi sugerida pela última exposição individual do nosso amigo Vaz Duarte. Nessa exposição o retrato feminino tinha qualquer coisa mais que o distinguia. É que, implícita, a sinestesia de carácter sedutor com que o nosso retratista compunha a factura da obra. Ainda que absorvido pelo estado de êxtase, frequente no acto da criação, o perfume de ser-se mulher (jovem e bonita mulher) funciona como um microclima onde o artista se move na procura de melhor dizer das suas atracções que o impedem de dissociar o homem-homem do homem-artista. Este clima especial que aquece sumamente mais os seus retratos de mulheres fornecendo-lhes uma verdade singular que já não encontramos completada assim nas outras obras. Nessas, o artista congela no frio intelectual que lhe conduz os pincéis e mesmo que lhe dita a escolha da paleta. Razoável ou não o reparo, continuo a gostar mais do Vaz Duarte retratista do belo sexo. Claro, que temos bem presente Taine quando interpreta, através dos condicionalismos do meio, a explicação para a opulência de formas nas virgens de Rubens. Quanto a mim, no caso do Vaz Duarte haverá, porventura, uma osmose constante entre pintor e modelo, isto é, o salto do êxtase pictórico para o clima sedução e vice-versa.

Vasco Branco – Litoral 13/03/1992