A propósito da exposição de Vaz Duarte

Por Vasco Branco

«Na panóplia do consumo, o mais belo, precioso e resplandecente de todos os objectos – ainda mais carregado de conotações que o automóvel que, no entanto, os resume a todos, é o CORPO».

Baudrillard, in «A Sociedade de Consumo»

 

A fidelidade-infidelidade à fotografia, eis as coordenadas que numa visão superficial, esta pode sugerir. Mas que, para mim, vai bem mais ao cerne e atinge uma crítica implícita ao mundo consumista que ali se assume em toda a extensão da sua praxis. De facto, há nas telas de Vaz Duarte um rigorismo organizado tendente à percepção e intencionalidade de uma leitura rápida e fácil, princípio que norteia tudo quanto pretende servir a massa anónima do consumidor virtual. Evidentemente, que tudo isto pressupõe técnica apuradíssima e o instinto (será?) que lhe dita o enquadramento que tem como dever prioritário evitar redundâncias tidas como supérfluas. E se é certo que a arte é mais sugerir do que explicar, aqui o artista cumpre a regra por omissão dos chamados pontos mortos, isto é, daquelas parcelas que complementariam literalmente a intencional mutilação. E assim o pintor consegue os dois objectivos com invulgar perícia: por um lado, essa mutilação impiedosa impõe-lhe o enquadramento ideal, ou seja, o «quantum satis» sinónimo, aqui, de mera sugestão, ou aperitivo catalisador dos mecanismos capazes de completarem, na clave ideal, tanto quanto se pretendeu dizer. Por outro lado, a sugestão de um rasto de mistério, ou trilho aberto sobre o desconhecido que vai aureolar a obra e a torna muito mais viva.

Vaz Duarte consegue (e isso é tremendamente difícil) fugir à tentação do cartazismo que a sociedade de onde emerge o hiper-realismo cultiva na sua fúria de transformação da desnecessidade em tremenda e obsecante necessidade. Hoje, isto já volveu poluição intelectual que nos surge portas adentro através do caixote transistorizado. Não será por acaso que o «leitmotiv» dos seus quadros é obrigatoriamente a mulher. Claro, que não se trata de qualquer imposição machista, mas tão-só dessa outra imposição de um sinal que favoreça as conotações que melhor nos tocam e nos são mais gratas.

Desmistificar a noção de felicidade apregoada como sinónimo de conforto material, martelada quotidianamente pelos meios audiovisuais, desfazer até ao estilhaço essa falsa Meca, objectivo que merece a nossa total atenção. E aqui é que os quadros de Vaz Duarte assumem o seu poder crítico na técnica aposta na sua factura pictórica. De facto, o artista acentua o pormenor que mais lhe interessa à ideologia do conforto e da moda, pormenor, como disse, invariavelmente ligado à figura feminina, agora coisificada. O que uma pessoa vê, sobretudo, em «Blazer» é a felicidade que lhe daria fruir da sua posse.

Mas a sociedade de consumo é de tal forma tentacular que recupera tudo o que lhe opõe. E lembro o surgimento do movimento «hippie» que foi aproveitado, em muitos países, como atracção turística. E ainda, porque evidente nesta exposição, o caso da moda unissexo imediatamente negociável, por exemplo, as ainda tão usadas «blue jeans». Hoje, os valores que determinam a felicidade ajustam-se, quase em exclusivo, à fruição e posse de objectos e sinais supervalorizados pelos novos e eficientes processos de uma ciência de «marketing». Surge, então, a inflação dos valores, ditos de espirituais, o que se deve ao facto dos referidos valores não constituírem mercadoria negociável, isto é, da impossibilidade de os fazer entrar no jogo da oferta e da procura.

Vaz Duarte pinta o fascínio do objecto (a mulher enquanto parte de um conjunto de propaganda, não passa de objecto) e, paradoxalmente, é fascinado por ele (objecto). E isto significa que sente profundamente e na própria pele, a carga de coacções de carácter psicológico de que se serve e vive este nosso mundo de chamada «sociedade negociante» no dizer de Camus. O feitiço da mercadoria como sinal, ali está, e ali se respira. É tão contagioso que o sentimos nos próprios supermercados onde nos abastecemos. E Vaz Duarte usa com mestria o seu código. Lê-se nos seus quadros a sugestão de como se deve vestir, de como se deve dar a expressão a um rosto ou, simplesmente, de como se deve cruzar umas pernas no acto comezinho de se sentarem (as mulheres). Os seus quadros são pedaços de vida quotidiana, porque aí, precisamente, o espaço-tempo elegido pelo consumo.

Não há dúvida, Vaz Duarte. O pai pode dormir descansado o seu sono eterno. O seu menino-promessa cumpriu. Generosamente.

Diário de Aveiro 15 de Dezembro de 1988