Res-Alma ou a emergente república das almas

“O mistério, quando desvanecido, situa o lugar do medo ao centro do peito.”
in breviário imaginado personalizável – C. C. Nunes


 

Início-mergulhando. Por esses dias nascia o pincel na mão direita de um berço, navegando, líquido, na perfídia de um mundus posterior. O ditador era uma máquina de fabricação de gelo, de imortalização da ausência. Agora, esse mecanismo, ele próprio desvanecendo-se no seu limbo, reaparece sob forma talhada a tintas e matéria de suor e sangue. Em Absentia. Tratar-se-ia de um quadro, não fora o passado vir bater à minha porta lembrando-me os prantos seguros de gentes da época em que nasceu o menino que, primeiramente, se fez homem de púlpito para depois querer falar por através da cor, do traço, da cerebralização do Eu.   

Viandando. O percurso faz-se caminhando e o de Henrique Vaz Duarte não será excepção. Tal como o próprio indica numa biografia a que tive feliz acesso, terá tudo começado “em Aveiro, em 1953, no seio duma família da média burguesia. Pai, oficial do exército, mãe doméstica, avô fotógrafo profissional e avó professora primária aposentada”. Havia um “território” na família onde as lições eram seguidas a par e passo, com avidez. Aos dez anos, passava-se o tempo disponível pelo estúdio fotográfico do avô. O trabalho “alquímico”, na câmara escura, onde presenciava a magia da folha branca transformando-se em fotografia, era deslumbramento. E mais ainda quando via o avô colori-la manualmente, como era costume na época da fotografia a preto e branco. Já o  pai, desenhava e pintava como passatempo. Se estas duas figuras, pai e avô, foram responsáveis, involuntariamente, pela afeição que nutria pelas artes plásticas, foi, contudo, um quadro, pendurado na parede do corredor da casa onde vivia, que o fez sentir uma atracção maior. Era o desenho de um velho. Desenho feito pela avó, pois que às senhoras, naquele tempo, se ensinavam as artes do desenho, a par com muitas outras. Todos os dias o via. Todos os dias ele o acompanhava na sua infância tolhida de sonhos e esperançosos começos quotidianos.

Se já desenhava desde miúdo, aos treze e catorze anos começa a tentar apurar alguma técnica. Conhecedor dessa habilidade para o desenho, o pai chegava a trocar explicações de português, que leccionava, por lições teóricas de pintura, para ele. Fazia-o também decorar visualmente obras de pintores renomados e conhecer as respectivas escolas, folheando livros e revistas de história de arte. Ele adorava aquela sabatina sistemática. Porém, se Caravaggio, Goya ou Velázquez o impressionavam, é a pintura de Paul Delvaux, de Giorgio de Chirico e de René Magritte que o marca indelevelmente e vai influenciar na sua plástica futura. A sua pintura de hoje. Sem Dúvida.

Mas não apenas isso. Com 15 anos, na sequência daquela actividade e ensinamentos familiares, extra-escolares, pretende ingressar nas Belas-Artes, após finalizar o Liceu. Tal foi-lhe vedado, certamente porque, na altura, essa actividade era tida como indigente ou própria de quem não conseguia realizar nada mais de útil à sociedade. O que interessava era o canudo, especialmente dos, assim ditos, socialmente apreciados e financeiramente importantes. Direito ou Medicina. Seguiu as leis pouco dadas à justiça, e menos à liberdade, em tempo de ditadura. Direito. Sem vocação. E sem qualquer referência ou tradição familiar. Ainda assim, nos tempos de Coimbra, a sua vivência, em particular a da residência estudantil onde se instala, a República dos Kágados, em 1972, fê-lo ingressar na célebre Revista Vértice, convidado por Mário Vale Lima. Para ela fez vários desenhos, ilustrativos de textos, todos acabando censurados às mãos de um regime nada dado às artes que pudessem suscitar a mais ínfima suspeita de rebelião, sequer estranheza ou suspiro libertário. É nesse período que se inicia na pintura a óleo, com uma obra que titula de “Tarde”. Já aí se percebe um sentido figurativo com nobreza estilística mas, sobretudo, o carácter inquieto da sua construção narrativa marcadamente contestatária e reflexiva sobre o mundo em redor. Apresenta-se pois a “Tarde” com braço de mulher, translúcido, onde o próprio rosto feminino se desvela, diáfano, como que aglutinando o ser e seu desejo de ser, emergindo como que planta, massa corpórea nascendo em paisagem geometrizada, pop, colorida mas marcada em todas as camadas térreas. É uma espécie, dissimulada, de “O Grito”, de Edvard Munch, subtilmente escondendo o clamor numa ilusão criada para se furtar ao Censor. Há, nessa obra o espírito contestatário que preside à inquietação dos inconformados e isso há-de ser mais evidente nas obras que Henrique Vaz Duarte criou especificamente para esta exposição, “Água pelas Almas”. A sua formação em direito ter-lhe-á dado eloquência e conhecimento. Perpassam pela sua obra os eivos de situacionistas como Guy Debord. Daí a crítica construtiva que aponta outras vias, necessárias, de construção do futuro. A “Sociedade do Espectáculo” num retrato rigoroso, subliminar, contundente. Assim são as obras “Coup d’État”, “Protocolo” e “Relatório”, todas saindo para lá do mero exercício crítico e se fixarem na retumbante citação que evoca a acção contra-corrente da obra referenciada. Ter-lhe-á o Direito, contudo, negado mais tempo para a actividade que escolheu amar. Só em 2009 ensaia dedicação exclusiva. Pese embora ao longo das últimas décadas tenha realizado várias exposições, algumas de nomeada, considera ser esta, precisamente, a sua primeira exposição como pintor. A primeira de muitas, permito-me considerar, pois que a globalidade das obras que agora aqui mostra constituem um Corpus Hermeticum, de cuja solidez não carece dúvida, pelo que é fundamental dar-lhe continuidade em realizações consequentes.

Opera-mundi. Se o título da presente mostra pode suscitar a percepção do adágio, vox populi, que aponta para a canseira ou carga de trabalhos a que se deu o autor (“água pela barba” é expressão, seguramente, contida na sua formulação), esse esforço é feito pelas Almas, por um sentido maior, altruísmo em estado líquido num tempo e espaço. Este. Henrique Vaz Duarte ousa criar um planisfério simultaneamente táctil e sensível. Paradoxalmente, imanente e racional. Nietzsche estava equivocado, parece dizer-nos. O que é, afinal é. Não podia ser coisa outra. Nenhuma. Heidegger também. A coisicidade da coisa não tem de ser procurada. Está especificamente ali. É evidência e resultado em si mesma. Obras como “O Princípio de Peter”, cujo conceito pode ser resumido como “um sistema hierárquico, onde todo o funcionário tende a ser promovido até ao seu nível de incompetência”, aqui visto numa perspectiva assassina, múltipla, onde a vítima se mantém de pé, tendo por contraponto o desvanecimento da paisagem, “Renaissance” ou “Tempus fugit”, expressão latina que significa "o tempo foge", mas normalmente associada a "o tempo voa", expressão usada pela primeira vez  por Públio Virgílio, nascido em 70 a.C., Sed fugit interea fugit irreparabile tempus ("Mas ele foge: irreversivelmente o tempo foge"), atestam a verdade e coerência do discurso de Henrique Vaz Duarte, na justa medida em que reivindica a suspensão genérica do sistema em que nos movemos, a sua reinvenção. Numa afirmação identitária eloquente e sensível, o autor pede-nos que entremos num mundo que, sendo dele fruto, pode ser nosso, se o partilharmos. Será um estóico e, afinal, quem terá razão é Giordano Bruno e a magia não é mais do que a memorização ad infinitum de um palácio onde caibam, por interrelação, todos os livros, todas as histórias e narrativas que cada um para si constrói ou o marcam, como ferro em brasa, para que estejam sempre disponíveis a serem partilha generosa e múltipla pelo mundo. Mas há mais. Na série “Limbo” e em “Maria II”, assim como em “Das Kabinett”, existem os traços, avisos, do que nos espera se não ousarmos deter o curso das coisas. Se não retivermos o tempo para que possamos repensar. Tudo. Há, aí, referenciais que autores como Joel Peter Witkin e Jan Saudek, de maneira distinta, fotográfica, procuraram retratar, num jogo simultâneo de grotesco, gótico, horror e ironia corrosiva com, também, um misto de inconsequente humor e leviandade. Isso, parece contar-nos, como se crianças fossemos ainda, nos sucederá se acreditamos que o Limbo foi removido, como que por decreto Papal, que houve. Se julgarmos que não depende de nós a retirada da mordaça. Se não optarmos pela “Mensagem”, ode pintada em torno da declaração glorificada do nosso poeta-mito, ou pelo humor, inscrito na forma de “Aproaching Storm”, o risco será isso mesmo, a tempestade aproximando-se, particular, pujante, e mais não seremos do que o personagem retratado em “Survival”, obra que segue, ainda que levemente, a estética celebrizada por Art Spiegelman na sua fantástica narrativa “Maus”.

Concussionário. Henrique Vaz Duarte era, para mim, desconhecido até há bem pouco tempo. Não sabia da sua obra, não lhe conhecia o passado, não lhe imaginava a voz ou o rosto. Muito menos sabia da sua possibilidade discursiva do real feito imagem, imaginário inscrito na matriz criadora da obra que em mim se foi inculcando, eivando certezas, juízo feito de contaminar-se. Confesso-me aprendiz em busca circular por um tempo de sabedoria e paz. Quando solicitado a escrever estas linhas disse o de sempre, que teria de ver a obra, ler-lhe afinidades com o que julgo saber de mim para poder falar de outrem. Fiz-me cautela e reafirmei o que considero fulcral. Não conhecendo a obra, não me seria possível aceitar escrever algo que teria de ser, por força das circunstâncias onde aparece inscrito, um algo elogioso, no mínimo afável. Não sou dado à possibilidade retórica do sofisma. Sou do mundo, Socrático. Busco, na essência das coisas um caminho que me aproxime o mais que possa dessa centelha viva que é o conhecimento puro da verdade feita obra, feita mundo. Pesquisei o autor e a sua obra anterior. Foi-se definindo, ante meus olhos, o sentido claro da descoberta. Numas obras vi experimentação, noutras, caminho. Nestas, que me chegaram depois, certeza. Sei agora, no lugar seguro da convicção, que estas obras se ligam a mim numa mesma busca narrativa. Um mesmo imperativo de contar o mundo ao mundo. Um algo a dizer, inadiável. Uma confirmação. Altruísmo indizível que respeita aos vivos, nós próprios, ligando-os ao que somos e antes o foram outros, por nós, em via de se fazer átomo existencial e perene. Sopro de vento contínuo e mágico. Palavra repetida na exaustão do tempo. Gestos de silêncio e abandono. Mas sempre, sempre, amparados na vontade sólida, inabalável, de se fazerem dádiva. Amor. Assim nasceu a pintura de Henrique Vaz Duarte aos meus sentidos e em si mesma. Os votos, que faço, prendem-se com o desejo de a ver avançar segura por entre tempos, estes, de vendaval, renovando-se a cada passo, mantendo-se a mesma no discurso, no decurso da vida.      

 

 

Carlos Cabral Nunes – Outubro de 2011

 (texto do catálogo da exposição “Águas para Almas” - Museu do Douro, 2011)