Implacáveis Adivinhos

 

Eu digo que não existe figura ou objecto, nesta galeria de mitos recuperados, que não avance um enigma, para o qual não disponha de antecipada revelação. Serenamente se alinharam, pois, no pergaminho do tempo, extraídos ao painel de um mapa inconsútil, e permanecem com o que teima em constituir os andaimes de cada homem, cabelos e unhas, ossos e nervos, sangue e sémen e poros por onde a brisa da tarde se respira.


Eu falo de um deus de cabeça de auriga. Apolo habituado ao convívio dos loureiros, tão apto ao canto de combate como ao hino cerimonial, enquadrado pela moldura que lhe conferiram as divindades que o apearam. Trata-se de um mancebo que se transmuda no flanco de David, desses que jogam o pau como por obrigação de macheza, e que se tornam tão amantes do barro que o confundem com as ninfas, e nele se esponjam, sempre que o cio lhes anda a morder os artelhos.


Eu lembro a vagabunda das estradas mediterrânicas, hesitando entre a glória da conquista e a proclamação do oráculo, sentada como qualquer candidata a modelo, frequentadora das esplanadas da Promenade des Anglais. Esquecida das próprias asas, que espera ver confundidas com a capa de chiffon do último desfile, ei-la que pôs em repouso, e sobre os joelhos, a corda benfazeja, que lhe servirá para a doçura do estrangulamento de uns quantos de seus assíduos consulentes.


Eu perscruto os augúrios, seixos e bagas, grainhas e caramujos, lançados pela mão ressequida do antigo senhor do carro de guerra. Uivam os lobos da floresta de abetos, lambe a praia uma onda de sargaço, ergue-se no vento um novelo de pó. Entroniza-se o rei, acabado de ungir, entre archotes que acendem o olhar das mulheres e dos meninos. E reclama a tribo a esfera de ferro, a rede de estopa, a faca sacrificial.


Eu escrevo o nome de Henrique Vaz Duarte, ou a assinatura de todos nós, os que aportamos, agora, na noite de Verão, oriundos de idêntico lugar.
 

Mário Cláudio
(Texto do catálogo da exposição “Implacáveis Adivinhos”,- Galeria D. Diniz, Vila Nova de Cerveira, 1998)