Paisagens Rusticanas

 

O surgimento da fotografia foi, indubitavelmente, um factor determinante na evolução da pintura, nos seus aspectos formais e de conteúdo. Poder-se-á dizer que o surgimento da placa de nitrato de prata empurrou a pintura numa fuga para a frente em direcção a formalizações icónicas até aí insuspeitas.
No após realismo, a uma sucessão de inquietações: impressionismo, simbolismo, fauvismo, cubismo, abstraccionismo, …. conceptualismo, …. até que (e para além da viagem pela transrealidade do surrealismo) o hiperrealismo e realismo fotográfico integram a fotografia e elaboram um discurso do real ao segundo grau.


Banalizada a inovação, superadas as dificuldades técnicas, a pintura integra a “perfeição do sistema mecânico” e junta-lhe a individualização do objecto único, do gesto específico, da obra identificável per se.


Henrique Vaz Duarte faz este discurso do 2º grau – realidade-fotografia-pintura – declaradamente e, no entanto, a este modo de dizer “exacto” junta e com ele conjuga a expressão pictórica pura do croqui, da cor e do risco libertos das formas, da decomposição ou composição organizativa da superfície pintada. É como que um diálogo entre a pureza do real preso na foto e evidenciado pelo pincel e a pureza das superfícies que se pode buscar em Mondrian, ou as áreas dum minibal bad, ou talvez um modo de expressionismo informal.


É a construção dum “cenário” (como o autor afirma), mas também a viagem inquieta pelos cenários conceptuais, da história da pintura. A viagem ainda não é síntese. É só espanto por cada visão obtida, por cada olhar que encontra o inesperado, por cada paragem no percurso.


Estudada a pose, medida a situação, composto e recomposto o contexto, pinta com aplicação e “métier” a imagem parada no tempo e no espaço. Depois acontece o instantâneo ou não. Existe o contrate ou não. Fala um dizer diferente que fala dum momento específico de criatividade. Por vezes o inesperado: um discurso pictoral composto de diversidade que procura a unidade nos opostos.
 

Porfírio Alves Pires
(Texto do catálogo da exposição “Paisagens Rusticanas” - Galeria Quattro, Leiria, 1993)