Uma estética da acuidade

 

Precipita-se o instante na corrente conducente ao estuário de todos os momentos, tal como o precedente e sucessivos instantes, sempre irrecuperáveis, apreendidos, enfeitados, valorizados, como noutras latitudes se enfeitam os mortos, pois que a imagem irremediavelmente imóvel. Assim, restará fazê-la reviver, e em dádivas a Thanatos, porventura bem sucedidas, decidir um pormenor que o enleie, o perturbe por um momento: projectar, aumentar. E a partir do redimensionamento do instante, emprestar-lhe outra realidade, de forma  a que se tome esta pelo real, mimada, neutra.


Na mitologia duma visão exaustiva, na fantasmagoria de um olho aumentado e perfeito, recordemos que, na China, em 1875, consideravam a máquina fotográfica instrumento capaz de ver através de rochas, montanhas, a própria alma, na transparência e ubiquidade de uma visão total, como nos relata John Thompson. Chegamos então ao hiperreal na mais extrema transparência e acuidade, assim se motivando os hiperrealistas no sentido de corrigir as imperfeições fotográficas, o que aliás viria a ser explicado no Outono de 1968, por Franz Gertsch, ao referir que pintara os primeiros quadros naturalistas a partir de documentos fotográficos, e percebera que a realidade não pode ser apreendida, hoje em dia, senão pela fotografia, uma vez que nos habituamos a ver na realidade fotográfica o real na sua dimensão máxima.


Num jogo de prazer se vão fixando instantes, em recusa à alteração das imagens definitivamente ausentes e uma decomposição que, não se pondo em dúvida, não aparece, não estará nunca. Tal como as palavras levam ao eco, talvez aqui no hiperreal, se porfie numa alucinação do perfeccionismo, na materialização de uma forma de liberdade.
Henrique Vaz Duarte adoptou instantes de vivos, momentos dos seres em seus momentos, em seus movimentos, assim os deixou plasmados por nova imagem, a sua dele imagem, roubada para enfeitar. A sabedoria é também sofrer da incapacidade de agarrar momentos, seres em seu presente. E ninguém nos afirma que os ama, talvez lhes recuse a sua deles realidade: uma mulher olha pela janela e nunca se deterá perante esta janela; a mão apoia-se tão transitória como a possível rua que aquela observa;


Sofredor, este coleccionador de imagens, de uma fome feita de restos de magnificência, suspeita de pequeníssimas faúlhas onde o desejo se refugia inseparável da emoção velada, sufocada, a si próprio se condenando a ser o que sente: a estese, sempre dolorosa, é lâmina de inimitáveis, inumeráveis gumes, assim se aceitando um futurismo estético por um marinetti da genética, para que se proporciona ao belo, outro pretexto de resistência, embora eu não possa saber, porque motivo fixou, este violador de instantes, uma das figuras femininas do “Blade Runner”, precisamente a dona de mãos perfeitas voltejando por sobre o teclado de um piano, translúcidas, esguios os dedos como estiletes, frios como agulhas de gelo.


É que o hiperrealismo, tornado o ser humano como tema, produz um pânico temperado de uma angústia muito especial, por proporcionar ao olhar aquilo que somente o desejo, cego, lê. Do desvario de um pincel possuído pelo cromatismo e pela mão que o segura, que haverá a esperar? No ritmo descontínuo de emoções escapadas de sua partitura se enrederá o que os utiliza, possuído por vampirismo profanador de uma realidade controlada pelo olhar: ali está a minha árvore, o meu mar, o meu casulo, o meu outro corpo desvairadamente declinado.


Socorrem-se, os sacerdotes de um qualquer talento, de fórmulas mágicas, vestes mais ou menos imponentes, embora quase nunca se desvendem e quase sempre se mostrem. Afastados da censura ou lisonja que os atinja, em si mesmos se enredam; sabem: mostram o rosto que pretendem em sucessivas máscaras, e nunca o que detêm, pensam.
Esta sucessão de trabalhos, poderia ser o mapa do tesouro, tudo denpenderá da ordem ou do desordenamento, de leituras ou silêncios, do olhar, da indiferença, ou da curiosidade, da identidade.


Fiquemos em paz com as nossas consciências: o pintor declinou seus desígnios: ver e pensar o movimento querendo atingir o rigor de uma estética de acuidade. Barthes afirma que o futuro está em e com o presente: “a vida privada não é mais que uma zona do espaço onde não sou uma imagem, um objecto. É o meu direito político de ser o que necessito defender”.


Existirá a aliança impossível do real e da liberdade contra a imagem? Terminemos em interrogação.


Filomena Cabral

(Texto do catálogo da exposição “O Mapa do Tesouro” – Galeria Pedro Guimarães, Porto, 1987)